Quem já esteve activamente no escutismo sabe bem que essa experiência perdura muitos anos e acompanha-nos ao longo de toda a vida. Para o ilustrar convidámos, nas comemorações dos 75 anos do CNE, vários antigos escuteiros, hoje individualidades da sociedade portuguesa, a responderem-nos a algumas perguntas relativas à sua experiência no Escutismo.
1. Porque é que foi Escuteiro?
2. O que é que o Escutismo trouxe à sua vida?
3. Do que se recorda mais da sua vivência no Escutismo?
4. Qual a mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje?
Conheça aqui as respostas de cada um dos entrevistados:
D. António Ribeiro (falecido), Ex-Cardeal Patriarca de Lisboa
É comum dizer-se que o Escutismo representa uma excelente escola de formação humana. Sabe-o toda a gente, mas conhece-o de um modo particular, quem alguma vez foi escuteiro.
Tive a sorte de fazer parte de um grupo de escuteiros do Seminário de Braga, já lá vão mais de trinta anos. O facto não foi indiferente para mim: ajudou-me a crescer em humanidade, no contacto com o mundo, na disponibilidade para o serviço dos outros e na concretização de um ideal de vida; ajudou-me, enfim, a crescer na fé e na vocação sacerdotal.
Por isso, ainda hoje me considero membro da grande família escutista!
in Congresso CNE 2000, realizado em 1986
D. Eurico Nogueira, Ex-Arcebispo Primaz de Braga
Fui Escuteiro porque participei numa "discussão" em Lisboa, onde elogiaram muito o Escutismo, sobretudo o seu carácter voluntário e espontâneo. Desde ai fiquei com um grande respeito e admiração por este movimento, e por isso aderi ao Escutismo. Em boa hora, porque fiquei ligado ao Escutismo para sempre.
O que o Escutismo trouxe à minha vida foi uma ajuda na minha formação humanista e na consolidação da vocação.
Da minha experiência no Escutismo recordo-me da vivência dos acampamentos e o contacto com os Escuteiros Italianos na época do pós-guerra.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje, é para que sejam fieis às tradições, e que o CNE continue a ser uma escola de juventude.
Dr. José Menéres Pimentel, Ex-Provedor de Justiça
Fui Escuteiro porque não me agradava nada ter que me integrar na Mocidade Portuguesa e participar nas respectivas actividades.
O que o Escutismo trouxe à minha vida, de entre muitas coisas boas, foi principalmente dar-me o sentido de responsabilidade.
O que mais me recordo, com saudade e admiração, da minha experiência no Escutismo é de um homem, que foi chefe da minha unidade nos meus tempos de Escuteiro: o Chefe José de Oliveira Mártires.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje, é para que o Movimento procure ser cada vez mais independente do poder político.
Dr. Jorge Lacão, Político, Deputado à Assembleia da República
Fui Escuteiro provavelmente por efeito da influência positiva dos mestres que tive enquanto criança e enquanto jovem e que muito marcaram o meu desenvolvimento futuro.
O que o Escutismo trouxe à minha vida foi seguramente a interiorização da máxima "Sempre Alerta para Servir".
O que mais recordo da minha experiência no Escutismo foi do companheirismo mais franco e leal que pode imaginar-se.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje é de que os valores da fraternidade e da solidariedade são seguramente, um título permanente para todo o Escuteiro.
Margarida Pinto Correia, Jornalista, Locutora de Rádio, Actriz
Fui Escuteira porque me apeteceu: umas amigas minhas do colégio onde andava tinham acabado de se inscrever no Agrupamento 230 - Olivais Sul - e desafiaram-me a "alinhar" com elas. O Escutismo pareceu-me uma excelente forma de prosseguir actividades extracurriculares, ao ar livre, com uma franca e activa postura católica saudável.
O que o Escutismo trouxe minha vida foi um reforçar de alicerces como pessoa e como agente em sociedade, para além de reforçar os alicerces da minha fé, e da vida em comunidade, aumentando ao mesmo tempo as minhas fronteiras físicas de independência, "desenrascanço" e responsabilidade.
O que mais recordo da minha experiência no Escutismo é da força que aprendemos a pôr em cada passo; na procura de reforçar laços de amizade, que se mantêm, embora distantes, até hoje. Na prática recordo-me, dos raids, dos acampamentos, dos longos fogos de campo a debater a essência humana e o que poderíamos ser "mais" do que julgávamos ser...
A mensagem que gostaria deixar aos Escuteiros de hoje é para que continuem a cortar amarras a cantar bem alto, a sorrir mais fundo e aprofundar a fé. São tempos de grande verdade e transparência que muito dificilmente reencontramos ao longo da vida de adultos. É fundamental acreditarmos que existe, para nunca mais nos esquecermos. Acreditem: Fica connosco para a vida!
Dona Isabel Herédia, Duquesa de Bragança
Fui Escuteira porque a minha irmã entrou para os Escuteiros e eu também quis entrar. Depois fomos para o Brasil e os meus pais acharam que devíamos continuar ligadas ao Movimento, continuei e gostei imenso.
O que o Escutismo trouxe à minha vida foi uma série de experiências a nível de participação, solidariedade e de trabalho em grupo. Também me ajudou a improvisar e desenvolver as minhas capacidades ao máximo, devido aos imprevistos com que deparava em acampamentos nos quais os tinha de solucionar rapidamente. Foi isto que o Escutismo me deu, e principalmente parte de solidariedade e do trabalho em conjunto que foi muito frutuosa no Brasil.
O que mais me recordo da minha experiência no Escutismo, é do meu primeiro Acampamento, que se realizou em São Paulo, com todas as Escuteiras desse Estado. Foi um grande Acampamento no qual me diverti bastante.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje é de parabéns para todo o Movimento pela maneira como tem sido e pela forma como tem actuado. Sobretudo não se esqueçam que os Escuteiros são sempre um exemplo, não só para Portugal mas para o mundo inteiro.
Prof. José Hermano Saraiva Historiador, Escritor, Autor e Apresentador de Programas Televisivos
Fui Escuteiro porque, um colega meu de liceu era Escuteiro no grupo 63 da Encarnação, e convenceu-me a ir à sua sede, desde logo fiquei fascinado pelo conjunto da linguagem e técnica escutista.
O que o Escutismo trouxe à minha vida foi, dar-me uma forma simples e solidária de encarar todas as situações, mesmo as mais inesperadas.
Da minha experiência no Escutismo recordo-me do Acampamento Nacional em que tomei parte e de todos os outros momentos da minha vida escutista que vivi com muito entusiasmo.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje era para que cumpram a Lei do Escuta durante toda a vossa vida.
Dr. José Luís Castanheira(Ex-Secretário Nacional Pedagógico), Director-Geral da Saúde
Fui Escuteiro porque quando tinha 15 anos, o meu Prior sugeriu-me que entrasse para o Agrupamento 71 - Parede. Em 1963, fiz a promessa de explorador, gostei e prossegui.
O que o Escutismo trouxe à minha vida foi, tanta e tanta coisa... O mais importante, terá sido o sentido de SERVIÇO, espectacularmente bem resumi-do na Oração do Escuta, não acham?
A descoberta dos aspectos positivos da vida, o sentido da responsabilidade, o treino da liderança, etc. Ser Escuteiro foi (é) óptimo!
O que mais recordo da minha experiência no Escutismo é da vivência da fraternidade Escutista e o trabalho em equipa - o chamado Espírito de Patrulha. A descoberta da festa - o encontro de cada um de nós consigo próprio e com os outros em Cristo ressuscitado.
Vivi uma experiência única - a luta pelo reconhecimento da coeducação: começou em 1966 e durou mais de dez anos. Terá sido o contributo mais importante que 0 Agrupamento da Parede deu ao CNE.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje é para que em cada momento e em todas as circunstâncias, mantendo-se fiéis à Lei à Promessa e Princípios. Não esqueçam: Escuteiro é o que sabe que não nasceu para si mesmo.
D. Manuel Clemente, Bispo do Porto
Fui Escuteiro porque através das publicações de Banda Desenhada, lembro-me de ter lido a vida de B-P, e desde ai aquilo ficou-me na imaginação. Quando vim estudar para Lisboa, decidi entrar para o Escutismo.
O que 0 Escutismo trouxe à minha vida foi uma maneira de estar nas coisas e um apelo à criatividade... bem presente na definição que B-P dá a caminheirismo, sendo uma fraternidade do ar livre para servir...
Da minha experiência no Escutismo recordo-me das actividades, que quase valem mais do que a preparação como capacidade de iniciativa e de sonho.
O Escutismo proporciona - quer a nível de grandes ou pequenos eventos, através da troca de experiências, de planos, de convicções - um mundo de partilha que é a alma do Escutismo.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje, é que voltemos a B-P, pois ao longo da sua vida sempre soube aplicar o Escutismo aos nossos tempos. O espírito de ar livre e de serviço, que é a grande descoberta de B-P, é o tesouro do Escutismo.
Dr. Miguel Filipe Mendes(Ex-Chefe Nacional Adjunto), Médico Cardiologista
Fui Escuteiro porque inicialmente a farda exerceu um grande fascínio sobre mim. Enquanto explorador, continuei preso pelos jogos e pelo espirito de competição saudável, bem como pelo grupo de amigos que constituíam a minha patrulha Zebra. Como Sénior... foram as proezas físicas, como os grandes raides e acampamentos. Como Caminheiro... por poder começar a exprimir as minhas opções de Vida no nosso jornal e sobretudo pela descoberta da Fé Católica.
O Escutismo trouxe à minha vida uma influência de decisiva, emprestando-lhe espírito de mudança, de jovialidade, de favorecimento do trabalho em equipa e de construção de um espaço de vida agradável para todos os que me rodeiam na sociedade em geral, grupo profissional, família e grupos de amigos. O respeito pelas regras assumidas democraticamente pelo grupo e o espírito desinteressado de entreajuda e de lealdade, são também aquisições fundamentais que os anos de escutismo me proporcionaram.
O que mais recordo da minha experiência no Escutismo foram, os rallys da Primavera em trotinete e em carros, a descoberta de lindas paisagens naturais, as cantigas, a vida na natureza, o esforço físico e a entreajuda necessária para vencer barreiras naturais, as festas das Promessas, e a ultrapassagem de momentos de grande responsabilidade, intensamente vividos e compartilhados com os meus "amigos para sempre" nos primeiros tempos de dirigente.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje é que desfrutem ao máximo da riqueza do Escutismo, integrando os seus valores e a sua mística, sem esquecer a dimensão da Fé. Peço-vos que façam um escutismo simples, vivido na natureza, com espírito solidário e em torno de grandes causas. Só uma juventude entusiasmante, poderá proporcionar aos construtores do Amanhã a largueza de vistas e o desprendimento pessoal indispensáveis para remarem o barco da sua vida (e o país) no caminho do Senhor!
Dr. José Mendes Bota Político, Ex-Deputado à Assembleia da República, Ex-Eurodeputado
Fui Escuteiro porque estava no despertar da adolescência, com crescentes necessidades de esforço físico, ocupação da imaginação e da vontade, convívio de grupo, sentido organizacional da vida. Senti-me atraído pelo espírito de "Corpo", pelo contacto com a Natureza...
O que o Escutismo trouxe à minha vida, - além de tudo o que atrás enumerei - foi, a habilidade, a destreza manual e física, o apuramento dos sentidos, um certo código de comportamento moral e ético, um espaço para o desenvolvimento de capacidades de liderança e de iniciativa, um formar de espírito prático e de humildade, resistência e luta perante os obstáculos e as adversidades. Uma certa frugalidade e adaptação a diferentes situações que se enfrentam na vida.
Da minha experiência no Escutismo recordo-me dos Acampamentos Regionais e Nacionais, o Ripilau, Marrazes (Leiria), os fogos de conselho onde dei os passos musicais, do entretenimento, da descoberta das habilidades culinárias, a construção de estruturas em madeira, o orgulho mal disfarçado de sentir respeito pela faca à cintura e pela farda, desfilando pelo meio de procissões, em contraponto com um certo acanhamento por me ver (nessa altura) em calção azul escuro em tempos de invernia. São tantas as recordações que dava um livro.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje é para que desenvolvam o espírito de solidariedade, de desmaterialização das relações entre pessoas, de auxílio e de ajuda, porque a sociedade caminha a passo acentuado para uma descaracterização de valores, para uma amálgama de consumos, para uma despersonalização completa. Procurem sempre, em cada dia que passa, fazer o balanço do que fizeram pelos outros, em vez do saldo do que fizeram por si próprios. Procurem permanentemente o contacto com a Natureza, com aquilo que é genuíno, sejam ecologistas sem espalhafato em todos os vossos actos. Sejam livres de toda e qualquer dependência. Devia surgir um novo Baden-Powell …
Dr. José Tomaz Ferreira (ex-Assistente Nacional Adjunto e ex-Assistente Geral da Secção Caminheiros), Coordenador do Gabinete de Imprensa e Relações Públicas do Instituto de Reinserção Social
Fui Escuteiro porque detectei neste Movimento um espaço de liberdade, tanto mais aliciante quanto era atrofiante para um adolescente o ambiente do Seminário e a sua envolvência concreta naqueles remotos tempos.
O Escutismo foi um elemento estruturante da minha personalidade, nomeadamente, no plano dos valores. No Escutismo vi realçados valores como o carácter, a verdade, a honra, a lealdade, a iniciativa, a amizade, cuja importância intuíra e cuja prática testemunhara no seio da minha família.
O que mais me recordo da minha experiência no Escutismo, é do XII Acampamento Nacional realizado no Teixoso, em cuja organização e montagem tive ensejo de colaborar e que penso ainda não ter sido suplantado no arrojo e beleza das construções. Posso ainda salientar o Conselho Nacional de 1973, em que participei e em que tive a alegria de ver votada a proposta de Estatutos que consagrava a democratização do Movimento.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje, é a última mensagem de Baden-Powell onde está tudo. Ao CNE como Associação lembraria que não há presente sem passado e que é empobrecedor e desidentificante perder a memória. Quando passam 75 anos sobre a sua fundação, atrevo-me a lançar ao CNE, através da sua Junta Central, o repto de empreender a elaboração da História do CNE.
Dr. Rui Pena, Político, Ex-Deputado à Assembleia da República
Fui Escuteiro porque quando tinha sete anos, o meu querido professor Bernardino Ferro e sua filha, a Chefe Salomé, a quem o escutismo tanto ficou a dever em Santarém, falaram-me da vida e obra de Baden-Powell e da intenção de se constituir na cidade uma Alcateia sob a invocação de São Frei Gil. Fiquei entusiasmado e consegui no mesmo dia a autorização de meus pais.
O que o Escutismo trouxe à minha vida foi o viver intensamente o ideal escutista. Aprendi a contar comigo, mas também a contar com os outros para resolver as situações mais adversas com que me deparei. "Impossível" é uma palavra que deixou de figurar no meu vocabulário. Consegui afastar os "medos". Rigor, correcção e verdade foram valores que adquiri e que continuaram pela vida fora.
O que mais recordo da minha experiência no Escutismo é da amizade, camaradagem e sobretudo a alegria do convívio entre os escuteiros. Somos efectivamente uma família com genes próprios que nos distinguem e caracterizam. O Escutismo atribui carácter indelével à personalidade dos seus membros. Daí o reconhecimento da sua validade e eficácia como movimento ímpar de juventude.
Este Movimento tem sido ao longo destes setenta e cinco anos, uma expressão de virtudes cívicas e morais para os rapazes e raparigas do nosso país que complementa simultâneamente a acção da Escola e da Igreja.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje, é que apesar de o CNE comemorar este ano as suas Bodas de Diamante, continua a adaptar-se aos problemas das sucessivas gerações de rapazes e raparigas, falando a linguagem que eles compreendem e sentindo os seus próprios problemas. Assim, gostaria de lembrar a todos os Escuteiros que é preciso continuar a viver o Movimento para que o possam transmitir na sua essência às próximas gerações. Elas agradecer-vos-ão.
Prof. Carvalho Rodrigues Professor Universitário, Cientista ("pai" do PoSat, o primeiro satélite português)
Fui Escuteiro porque há 40 anos era algo muito natural e também uma dádiva.
O que o Escutismo trouxe à minha vida foi a possibilidade de fazer uma coisa bem até ao fim e uma de cada vez também até ao fim.
O que mais recordo da minha experiência no Escutismo foi da camaradagem vivida e sentir-me parte de um todo, onde o mal de um, é de todos e o bem de outro também é de todos.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje, é que as verdades do Escutismo são de sempre e para sempre pois fazem parte da Natureza Humana.
Comandante António Homem Gouveia (ex-Presidente da Associação dos Escoteiros de Portugal), Secretario-Geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, Ex-Comandante do Navio-Escola Sagres
Fui Escoteiro porque o meu avô, Dr. António de Sá Oliveira, foi o primeiro Presidente da Associação de Escoteiros de Portugal. A sua figura e referências foram fundamentais para o início da minha caminhada na vida.
O que o Escutismo trouxe à minha vida foi aprender a viver democraticamente, em sociedade, respeitar o próximo - independentemente das suas origens, religião ou cultura - proteger o nosso futuro na Terra. Estes são alguns dos ensinamentos que guardo da minha juventude.
O que mais recordo da minha experiência no Escutismo são, os alicerces da infância, o bondoso e sereno exemplo do meu avô, que me protegeram e guiaram nos longos anos de escuridão de ideias e sonhos. A minha vida, que eu julgava já experiente, foi enriquecida no contacto com os jovens extremamente generosos, optimistas e espiritualmente saudáveis.
A mensagem que gostaria de deixar aos Escuteiros de hoje é apenas uma palavra simples e sincera: Respeito. E um grande abraço, para os mais jovens de esperança e certeza. De gratidão, para os mais sábios.