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O Peso do lixo
Projecto de Gestão de Resíduos em Campo

Símbolo alusivo ao cargo de
Animador Ambiental.
A Terra como fonte de energia, com recursos e espaço limitados
Promotor do Projecto Departamento Regional de Educação Ambiental do CNE Região de Évora Concepção e Coordenação Maria Helena V.P. Guerra Apoios Câmara Municipal de Viana do Alentejo
Universidade de Évora laboratório de águas
Instituto de Formação Profissional de Évora
Auto-Sueco Leiria
Hidrotec, Lda de ÉvoraAutor do Logotipo Manuel Guerra
Integrado nos objectivos do Acampamento Regional de Évora do Corpo Nacional de Escutas (CNE), realizado de 1 a 6 de Agosto de 2000 na Quinta do Duque, concelho de Viana do Alentejo, distrito de Évora, o Departamento Regional de Educação Ambiental do CNE propôs um Projecto para a Gestão dos Resíduos produzidos em Campo pelos cerca de 400 participantes.
O Projecto consistiu na constituição de Equipas de crianças, adolescentes e jovens nomeados dentro dos pequenos grupos em que se organizam, para desempenharem o cargo de Animadores Ambientais. Eram eles os responsáveis por garantir a triagem dos resíduos pelos elementos do seu grupo (grupos de 5 a 7 elementos). Constituíam turnos diários para a recolha dos resíduos triados e transporte artesanal (carroça puxada por burro) até à Sede da Gestão dos Resíduos em campo.
Foi efectuada a pesagem total do lixo produzido por grupo etário, a pesagem por tipo de resíduo para a caracterização do lixo, o encaminhamento diário dos materiais orgânicos passíveis de serem utilizados para alimentação animal, a compostagem em campo, a reciclagem de papel e a animação de um espaço de criatividade para a reutilização de outro tipo de resíduos. O lixo não reaproveitado era novamente pesado para se comparar com o total de resíduos produzidos e se avaliar a capacidade de reutilização dos mesmos em campo.
Todas estas tarefas foram executadas pelos jovens escuteiros sob a orientação de uma equipa de animação constituída por 2 dirigentes escutistas com formação académica na área do ambiente.
- Quando se programa uma actividade, o número e capacidade dos contentores para o lixo é determinado de uma forma aleatória e empírica, desconhecendo-se por completo a quantidade produzida bem como a composição dos resíduos;
- Sentimento de que os resíduos produzidos em acampamento, devido ao tipo de actividades desenvolvidas e à forma de concepção das refeições, será menor que a média de produção urbana e, relativamente à sua composição, mais facilmente reciclável e/ou reaproveitavel;
- Fruto de experiências anteriores, quando o esquema de gestão de resíduos não está previamente estruturado, planeado e com exclusividade na sua direcção em actividades com alargados contigentes de participação, o cansaço acumulado de dias bem vividos e noites mal dormidas leva a que seja negligenciada tão importante gestão.
- Porque se verifica algum cepticismo, principalmente ao nível das duas Secções mais velhas (dos 14 aos 22 anos), em relação à separação de resíduos por motivo de inexistência regional de fileiras que os encaminhem.
- Conhecer a produção quantitativa e qualitativa de resíduos no Acampamento Regional de 2000;
- Recolher elementos que permitam extrapolar a caracterização de resíduos produzidos em campo;
- Comparar a produção de resíduos proveniente de refeições confeccionadas em campo com refeições volantes;
- Reconhecer a necessidade de separar os resíduos;
- Criar hábitos de triagem de resíduos e seu aproveitamento em campo.
Com o desenvolvimento deste Projecto pretende-se que os jovens escuteiros:
- Sejam capazes de respeitar, reconhecer e dignificar a responsabilidade do encaminhamento do lixo;
- Sejam capazes de seleccionar resíduos orgânicos que possam ser utilizados na alimentação de suínos;
- Realizem e pratiquem compostagem em campo;
- Executem a técnica artesanal de reciclagem de papel;
- Desenvolvam capacidades criativas para reaproveitamento de resíduos;
- Sejam capazes de reconhecer a relação existente entre a triagem e a redução dos resíduos;
- Prestem cuidados de limpeza, alimentação e conforto a animal de trabalho que colaborará na recolha de resíduos;
- Progridam no Sistema de Progresso específico da sua Unidade;
- Prestem provas para a obtenção da insígnia mundial da conservação da natureza;
- Actuem como elementos desmultiplicadores nas suas comunidades de origem.
5.1 ACÇÃO Nº 1 - Organização e Planificação do Projecto
a) Articulação com as planificações a estabelecer para o desenvolvimento pedagógico de cada secção;
b) Definição de Regras de Campo relativamente aos resíduos;
c) Definição de Parâmetros de Avaliação do Projecto;
d) Concepção de um manual de funções / responsabilidades do cargo de Animador Ambiental.
A execução do Projecto esteve a cargo de jovens escuteiros organizados em Turnos, pelo que foi necessário articular com os programas das Unidades o seu desenvolvimento. Após efectuadas as inscrições para o acampamento foi aberto processo de nomeação de um elemento por Bando/Patrulha/Equipa para o cargo de Animador Ambiental. O sistema de funcionamento do escutismo tem por base, como anteriormente explicitado, a atribuição de cargos/funções a cada elemento do pequeno grupo (Bando, Patrulha ou Equipa, conforme a Unidade), pelo que a organização se baseou na tradicional forma de funcionamento.
Duas das Secções (Grupo pioneiro e Clã) estiveram dois dias fora de Campo, em raid itinerante, pelo que foi necessário estabelecer a regra do lixo ter de ser trazido para a base do Campo.
Para tal nesses dias distribuíram-se sacos aos referidos pequenos grupos assumindo o respectivo Animador Ambiental a responsabilidade de o entregar aos carros de apoio que se encarregaram de dar entrada a esse lixo na sede de gestão de Resíduos em Campo.
A definição de parâmetros de avaliação do projecto esteve a cargo da Equipa de Suporte, sendo depois aferida em encontro de formação prévio à execução do Projecto.
Foi concebido e reproduzido pelos meios da Junta Regional um manual para os Animadores Ambientais nomeados.
5.2 ACÇÃO Nº 2 - Angariação de Fundos
a) Organização de campanhas de angariação de donativos e bens junto de empresas, entidades privadas e mecenas;
b) Contactos com particulares para possíveis colaborações.
Para o desenvolvimento do Projecto foram necessários alguns materiais angariados sob a forma de bens ou adquiridos com comparticipação da Junta Regional. Esta acção foi executada pela equipa de trabalho do Departamento de Educação Ambiental.
5.3 ACÇÃO Nº 3 - Encontro de Formação
a) Reunião com os elementos nomeados para cargo de Animador Ambiental;
b) Atribuição de Funções / Responsabilidades;
c) Explicação do Projecto;
d) Sensibilização para a importância do cargo;
e) Desenvolvimento de noções teóricas de base necessárias à função e às tarefas a desempenhar.
Realizaram-se dois encontros de formação dos elementos nomeados para o cargo de Animador Ambiental, atendendo à disparidade de faixas etárias envolvidas.
Fig.1 - Formação de Animadores Lobitos (Redondo 17/06/00) Fig.2 - Formação de Animadores Exploradores (Évora 25/06/00) 5.4 ACÇÃO Nº 4 - Execução do Projecto
a) Recolha diária do lixo por Unidade;
b) Pesagem do lixo recolhido e cálculo volumétrico;
c) Triagem e caracterização do lixo;
d) Encaminhamento dos resíduos passíveis de serem aproveitados para reciclagem, reaproveitamento, compostagem e alimentação animal diariamente;
e) Pesagem do lixo não aproveitado;
f) Animação de espaço de criatividade;
g) Elaboração diária de relatório de produção de resíduos e comparação com as ementas.
h) Tratamento do animal de trabalho que auxiliará a recolha de lixo (burro) e alimentação diária dos suínos da herdade.
Fig.3 - Representação esquemática das acções desenvolvidas no Espaço-Sede
do Serviço de Gestão de Resíduos em campoO lixo triado era recolhido diariamente, após a refeição do jantar, por Sub-campo de Secção utilizando meio tradicional de recolha: carroça puxada por burro. Esta forma de recolha foi pensada de forma a cativar o interesse dos participantes. Ao chegar à sede de Gestão de Resíduos com a produção de uma Secção, os baldes etiquetados eram pesados e contados (conhecendo-se previamente a sua capacidade volumétrica para de cruzar depois a informação).
Seguidamente era feita a caracterização do lixo produzido e encaminhamento dos resíduos passíveis de serem aproveitados para reciclagem, reaproveitamento, compostagem e alimentação animal. O lixo não reaproveitado era novamente pesado para se comparar com o total de resíduos produzido e se avaliar a capacidade de reutilização dos resíduos.
Os resíduos orgânicos para alimentação animal (cães e porcos) e a compostagem eram encaminhados diariamente, também com o auxílio do transporte tradicional (que chegava a demorar 4 horas em trajecto).
A animação de um Espaço de Criatividade compreendeu uma das acções essenciais do Projecto que consistiu na criação de um espaço onde eram expostos resíduos como garrafas, latas e outros passíveis de serem utilizados criativamente para a construção artesanal de instrumentos musicais, castiçais de campo e tudo o que aprouvesse à imaginação dos jovens escuteiros.
Consistiu num espaço privilegiado para a exposição de trabalhos elaborados em casa (na sequência das acções de formação), para a reciclagem de papel, concepção de blocos de papel reutilizado, construção de fantoches de pasta de papel e de instrumentos musicais.
Diariamente era produzido um relatório de produção de resíduos e comparação com análise das ementas das refeições (o fornecimento dos géneros alimentares às Patrulhas e Equipas pelos Serviços de Campo, exceptuando situações de refeição volante que era fornecida sob a forma de ração às unidades que se deslocavam para fora de Campo).
Nos Sistema de Progresso concebidos para cada Unidade incluem-se uma série de provas práticas que foram preenchidas com muitas das acções desenvolvidas, pelo que foi concebido um registo das provas prestadas, que foi depois entregue aos dirigente respectivos (que acompanham o desenvolvimento e progresso dos elementos).
Da mesma forma foram tratadas as provas da insígnia mundial de conservação da natureza, concebida em parceria do Bureau Mundial de Escutismo com a World Wilde Foundation.
Fig.4 - Baldes Para Triagem por cada pequeno grupo Fig. 5 - Recolha diária dos resíduos triados até à Sede de Gestão de Resíduos Fig. 6 - Pesagem dos resíduos por secção etária e por tipologia Fig. 7 - Output diário da quantificação de resíduos produzidos por secção etária Fig. 8 - Encaminhamento diário do Comilão para alimentação animal Fig. 9 - Encaminhamento diário do Verdão para pilha de compostagem Fig. 10 - Encaminhamento do Papelão e do vidro contido no Lixão pelos Serviços Camarários Fig. 11 - Atelier de Reciclagem de papel com os Lobitos 5.5 ACÇÃO Nº 5 - Encontro de Avaliação
a) Avaliação de desempenho pessoal;
b) Avaliação do Projecto mediante parâmetros de avaliação estabelecidos;
c) Produção de Relatório Final;
d) Definição de estratégias de desmultiplicação dos princípios, atitudes e comportamentos.
Em Campo fez-se a avaliação por Secção. Entendeu-se que a Avaliação do Projecto deveria ser feita a frio e sem pressas, aproveitando para dar continuidade ao Projecto e mais uma vez dignificar a importância do cargo desenvolvido para o Acampamento.
Deste encontro produziu-se então um relatório final.
Na definição de estratégias para a desmultiplicação dos princípios, atitudes e comportamentos confrontaram-se as realidades locais na presença dos dirigentes das secretarias pedagógicas das secções.
O Projecto ganhou o prémio Forum Ambiente2000 na categoria Instituições sem Fins Lucrativos tendo sido apresentado publicamente na I Conferência Forum Ambiente., ilustrada na figura seguinte.
Fig. 12 - Apresentação do Projecto na Cerimónia de entrega do Prémio Forum Ambiente
Na tabela 1 apresentam-se os resultados finais de peso e volume para as diferentes categorias de resíduos consideradas. A triagem, de acordo com alguma sensibilidade e experiências anteriores, foi feita considerando o destino previsto para cada tipo de resíduos, tomando-se assim:
- o Comilão - onde se colocavam os restos de comida cozinhada (as sobras dos pratos e das panelas, pão e outras sobras);
- o Verdão - onde se colocavam os restos de verdes não cozinhados (cascas e caules de legumes e cascas, restos e caroços de frutas);
- o Papelão - onde se colocavam restos de papel de relatórios e actividades, bem como embalagens de cartão);
- o Lixão - onde se colocavam todos os outros resíduos não tipificados, sendo depois retirados os vidros, pilhas ou outros passíveis de serem utilizados criativamente (como as caricas e outros) na sede da gestão de resíduos.
Cada um destes componentes foi pesado por dia e por secção etária com uma vulgar balança doméstica de precisão de 0,5 Kg, tendo sido tarada para os baldes utilizados, que tinham uma capacidade volumétrica conhecida, pelo que enchendo os baldes de uma dada componente para uma dada secção, foi possível estimar o seu volume.
Tabela 1 Resultados diários e totais de produção de resíduos (peso e volume)
para cada componente triadaForam encaminhados pelos serviços da Câmara Municipal de Viana do Alentejo para reciclagem, todo o Papelão bem como 95 Kg de vidro do Lixão. A recolha foi feita em dois dias (1 a meio da actividade, para os participantes puderem testemunhar o encaminhamento e outra na semana seguinte à actividade). O restante Lixão, também da responsabilidade da CM Viana foi para aterro municipal.
Tabela 2 Valores de peso diários e totais por secção etária e peso percentualNa Tabela 2 apresentam-se os valores diários e totais de produção de resíduos por secção etária, bem como o peso percentual dessa produção.
Tabela 3 Produção de resíduos per capita por secção etáriaPor fim apresenta-se na fig. 13 de forma gráfica a composição total dos resíduos produzidos no decorrer da actividade regional.
Fig. 13 Composição dos resíduos produzidos no ACAREG 2000
Os objectivos definidos foram cumpridos, dispondo-se agora de dados quantitativos relativamente à produção de resíduos durante uma actividade de acampamento regional. Cada actividade desta tipologia é específica relativamente à sua programação, pelo que se considera que os resultados deverão ser considerados com as devidas reservas.
Verificou-se que a produção de resíduos não reaproveitáveis aumentou em dias em que as secções saíram para fora em actividade (4 de Agosto), levando cada participante a sua refeição volante, constituída por alimentos pré-confeccionados, com a responsabilidade de trazer o lixo de volta a campo (aumentaram os resíduos de embalagem tetrapark, plásticos e latas). No último dia de actividade apareceu de tudo na Central de Resíduos, desde talheres, meias perdidas, restos de comida e ingredientes não utilizados, entre outros, pelo que a produção de resíduos surge aqui também com um aumento generalizado.
Verificou-se que as secções que mais Comilão produziram foram a I e a II (dos 6 aos 14 anos de idade), que mais restos de comida deixam no prato, principalmente em dias em que a ementa não lhes agrada generalizadamente (dia de lulas e de rissóis de peixe) ou quando as visitas dos pais (dias 2 e 5 de Agosto) reabastecem as suas reservas de guloseimas. Em análise diária afinaram-se também distribuições de alimentos (por exemplo o ter-se verificado que apareciam no Comilão pães de quilo por encetar nas secções mais novas), pelo que em tempo real se corrigiu alguma produção de resíduos.
Os resíduos produzidos também dependeram de actividades de concepção de materiais (por exemplo fantoches) tendo aparecido na central latas de tintas, pincéis e outros materiais específicos.
O êxito do processo de compostagem do Verdão, deixado em campo em lugar sombrio, ilustra-se na seguinte sequência de imagens (na primeira semana de Agosto e na primeira semana de Outubro) não se conseguindo identificar os resíduos verdes que compunham a pilha, o que atesta o seu êxito em tempo recorde (em bibliografia são tidos em conta 6 meses para países Europeus de maiores latitudes).
Fig. 14 Compostagem em campo e após 2 meses Conclui-se que:
- a Compostagem em campo pode ser uma solução (acordada com o proprietário) para parte dos resíduos produzidos (no ACAREG00 constituíram 25% dos resíduos totais).
- A ementa, fornecedores de géneros e o programa de actividades muito influem na produção e tipologia dos resíduos;
Considera-se ainda que, em situações futuras, se deve apostar na formação e sensibilização dos dirigentes, uma vez que se verificou que eram os subcampos das chefias onde se pior se cumpria com a separação dos resíduos (as etiquetas dos baldes identificavam o bando/patrulha/equipa, animador ambiental ou responsável, pelo que era possível o registo das falhas mais flagrantes em lista negra.
Constatou-se também uma sobrecarga e desgaste do efectivo na Central do Lixo: estiveram 2 elementos permanentes com funções de coordenar o trabalho dos animadores ambientais, acompanhar, substituir e corrigir, reunir e avaliar diariamente, bem como diariamente proceder à lavagem dos equipamentos, carroça e encaminhamento do Lixão para fora de campo (os contentores não se encontravam em campo, para não haver a tentação de os usar indevidamente), bem como assegurar o restante encaminhamento dos resíduos, tentando não privar os animadores ambientais das actividades diárias das suas secções, pelo que em situações futuras se sugere mais efectivo.
Sugere-se também que se aposte noutras áreas (em termos de educação ambiental) para não reduzir as questões ambientais à problemática do lixo. Em campo tentou-se trabalhar o consumo de água e a qualidade da mesma. As análises da ribeira do Xarrama, gentilmente efectuadas pelos serviços de laboratório da Universidade de Évora, foram expostas e explicadas; cada ponto de água tinha um cartaz com informações várias de consumos e boas práticas, mas o reduzido efectivo a gerir a dinâmica não permitiu explorar outros temas inicialmente previstos, como o património natural envolvente.
O facto das questões ambientais constituírem temas de alguma novidade, dificulta a sua vivência e aceitação, sendo considerados aspectos secundários numa actividade.
Prioritariamente aparece o raid, o jogo, a refeição, Pretende também o presente relatório demonstrar que estas questões podem ser vividas num raid, ser a essência de um jogo, ser o reflexo de uma refeição,